terça-feira, 11 de maio de 2010

Viver e dúvida


Eu nunca me preocupei em ser sempre certeza.
Mas isso não impediu que eu me tornasse
a eterna resposta para tudo à minha volta.
Quando o mundo corria, eu quis deitar.
Quando o amor mais me quis, eu lhe dei as costas e decidi amar.
De repente resgato o caminho trilhado repleto em erros.
Aponto o dedo para o nariz do meu próprio presente - tempo
E ele, tristonho, me decorre que é um ator
E muito envergonhado, porém sempre honesto,
Relembra-me que sou seu roteirista e diretor.
Se eu contraí a fé nas etapas vividas por mim,
Eu fui covardemente ludibriado já que
O que eu mais pretendi era ser feliz e
Eu não queria ouvir de ninguém os insultos e a verdade.
Deprimente é aceitar que eu mesmo criei a minha fé.
O que exatamente me alerta que
eu mesmo me dei o meu presente - engano.
A minha cabeça é o planeta dúvida
e gira em torno de si mesmo.
É satisfatório...
Contudo, o ritmo do meu particular conflito
Não alumia nenhuma caverna de longevidade.
Vai ver que muito de viver e amar termina
Vai ver que a vida sempre continua...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Mulher de vestido azul cetim tomando café


O nome da cidade é desimportante.
No largo eu nem me dei em situado...
Antes do contorno direcionado
ao aberto,
Foi notável, por reflexos,
O destoar do azul na arquitetura
Cáqui-opaco.

A fonte era cetim ofuscantemente.
Ao sol o objeto era terráqueo
De natureza não-identificada;
Devida cautela requereu o contato
Visual desacreditado
E uma praça já não coexistia.

À verdadeira distância era
uma tocha royal;
Na suntuosa proximidade era mulher
E a postura era sua fórmula
Para compor as quatro dimensões
Com espaço algum.

Conforme a distração
Fosse um escudo aos olhares incrédulos
O porquê daquele azul veio ao caso
E já tão perto
Meu sobreolhado não descrente
Interpretou a obra.

A duração daquele levante
(de xícara)
Ofendeu-me a manhã
Até que a semana inteira
Perdesse o compasso...
Que vapores!

O odor do horário
Foi arbitrário e elegância faltou-te
n’um instante...
Quão rápida teria sido aquela partida
Ao deixar para mim o peso e a conta
da quarta dimensão...
O mistério?

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Saudade em soneto



Valha-me dia frio diante da maior ausência atroz...
Quem terá maldito o espaço ao meu lado
Calou os porquês na garganta ao ler sem letras
Que ando só e ladeado por um amor que nunca está ali

É que a saudade não quer ser vista como termômetro
E não creio em seu pico no dolo o indicador da real febre
Não. O cheiro de alguém ausente inebria todo o sistema
No auge do delírio crônico sorvo a solidão à covardia

Traduzindo o fulgor dessa epopéia difusa
Digo-vos que nada é feito por um ourives solitário
E a falta visceral que sinto copiosamente lacera-me

Inútil jurar um inimigo cruelmente não detectável
Provoca aos sussurros que vê-te pelas ruas
Salve-me já de tudo surgindo à minha porta.